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Alexandre Serra

Atrás do meu eu futuro.

história

As ilhas Curilas

Como as ilhas Curilas passaram de japonesas a soviéticas em 1945, e porque é que o Japão e a Rússia ainda as disputam.

Ver um vídeo do Yes Theory depois da minha recente viagem ao Japão transformou-se numa sessão de 2 horas a pesquisar uma disputa por um arquipélago no Oceano Pacífico entre o Japão e a Rússia 🙃.

As ilhas Curilas são um arquipélago de 56 ilhas (mais muitos ilhéus), na sua maioria vulcânicas, que se estende por cerca de 1300 km desde Hokkaido, a grande ilha do norte do Japão, até à Kamchatka, na Rússia.

Povo Ainu

Estas ilhas foram a casa do povo Ainu - viviam lá desde tempos remotos, mas os registos escritos anteriores ao século XVII são escassos. Os japoneses assumiram o controlo das ilhas durante o período Edo. Um mapa japonês de 1644 (o mapa Shōhō, do domínio de Matsumae) mostra 39 ilhas a nordeste de Hokkaido como parte do Japão.

Do século XVII até ao final do século XIX, Ainu e japoneses coexistiram neste arquipélago. Depois do Tratado de São Petersburgo de 1875 (ver abaixo), os japoneses começaram a assimilar à força os Ainu nativos:

  • Deslocando toda a população Ainu das Curilas (97 pessoas) para Shikotan em 1884
  • Dando nomes japoneses aos nativos
  • Obrigando-os a abandonar as práticas religiosas

O Tratado de Shimoda de 1855 fixou a fronteira entre a Rússia e o Japão entre Iturup e Urup, atribuindo ao Japão as quatro ilhas do sul. No Tratado de São Petersburgo de 1875, a Rússia abdicou do resto do arquipélago em troca do controlo incontestado de Sacalina.

Até à Segunda Guerra Mundial, estas ilhas eram reconhecidas internacionalmente como japonesas e habitadas por “japoneses”.

Segunda Guerra Mundial

Durante a Segunda Guerra Mundial, estas ilhas revelaram-se estrategicamente importantes para os japoneses. Os navios da marinha reuniram-se na baía de Hitokappu (baía de Tankan), em Iturup (sul das Curilas), até 22 de novembro e partiram de lá a 26 de novembro para atacar Pearl Harbor na manhã de 7 de dezembro de 1941 (hora do Havai), o acontecimento que (finalmente) levou os EUA a entrar na guerra mundial.

A Conferência de Ialta realizou-se entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, na União Soviética, entre os EUA (representados por Franklin D. Roosevelt), o Reino Unido (representado por Winston Churchill) e a União Soviética (representada por Josef Estaline). O objetivo era discutir como seria o mundo do pós-guerra. Estaline concordou que a União Soviética entraria na guerra contra o Japão depois da rendição da Alemanha e, em troca, ficou acordado que os soviéticos tomariam posse das ilhas Curilas (e do sul de Sacalina). Os EUA não revelaram durante a conferência os seus planos sobre a bomba nuclear (embora se saiba que havia espiões soviéticos dentro do Projeto Manhattan).

Churchill, Roosevelt e Estaline sentados lado a lado na Conferência de Ialta, com os conselheiros militares de pé atrás

Os “Três Grandes” em Ialta, 9 de fevereiro de 1945. Fotografia: fotógrafo do governo dos EUA, domínio público, via Wikimedia Commons.

A União Soviética declarou guerra ao Japão a 8 de agosto de 1945. Nove dias depois de os EUA lançarem uma segunda bomba nuclear sobre o Japão (Nagasáqui, 9 de agosto de 1945), a 18 de agosto, os soviéticos desembarcaram em Shumshu, a ilha mais a norte, dando início à campanha de ocupação do arquipélago. A 23 de agosto a guarnição japonesa rendeu-se, na sequência da rendição geral do Japão (15 de agosto). As ilhas do sul caíram entre 28 de agosto e 3 de setembro, e a 5 de setembro os soviéticos tinham ocupado totalmente o arquipélago. Os soldados japoneses foram feitos prisioneiros (até 60 000 no conjunto das Curilas) e os cerca de 17 000 civis japoneses foram expulsos das ilhas entre 1947 e 1949, a maioria para Hokkaido.

Administração soviética

Os soviéticos trataram rapidamente de impor a sua própria cultura, procurando apagar a influência japonesa. Nomeadamente:

  • Deram um nome soviético a cada ilha
  • Começaram a povoá-las
  • Destruíram as casas de estilo japonês para construir casas de estilo soviético

Até hoje, o arquipélago é maioritariamente reconhecido como russo.

Reivindicações japonesas

O Japão continua a reivindicar, até hoje, apenas as quatro ilhas do sul a que chama “Territórios do Norte” (Iturup/Etorofu, Kunashir, Shikotan e as ilhas Habomai), onde vivia a maioria dos japoneses e que ficam geograficamente mais perto do Japão. A sua posição é que nunca fizeram parte das Curilas a que renunciou.

Mapa de Hokkaido e das quatro ilhas disputadas a nordeste: Etorofu (Iturup), Kunashiri (Kunashir), Shikotan e as ilhas Habomai

As quatro ilhas que o Japão reivindica, a nordeste de Hokkaido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Entre os argumentos está o Tratado de São Francisco, que marcou o fim da Segunda Guerra Mundial e foi assinado a 8 de setembro de 1951. Foi assinado por 48 nações (mais o Japão), sem incluir a União Soviética, apesar de esta estar presente. Foi também um acontecimento que marcou a Guerra Fria. O Japão assinou o tratado renunciando a todos os direitos, títulos e reivindicações sobre as ilhas Curilas. No entanto, o tratado não especificou nem atribuiu a soberania a ninguém.

Shigeru Yoshida a assinar o Tratado de São Francisco, observado por membros da delegação japonesa

Shigeru Yoshida assina o tratado, 8 de setembro de 1951. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Assim, como a União Soviética não assinou, não estava obrigada a cumpri-lo. Logo, do seu ponto de vista, podia ficar com as ilhas Curilas. Isto criou um vazio legal evidente, de onde vem a maior parte das reivindicações japonesas.

Na Declaração Conjunta Japão-URSS de 1956, os soviéticos concordaram em entregar Shikotan e as ilhas Habomai depois de assinado um tratado de paz. Não houve nenhum tratado de paz desde então.

Dias de hoje

Um programa de circulação sem visto entre a Rússia e o Japão foi acordado em 1991 (14 de outubro) e começou em abril de 1992, para que os japoneses deslocados pudessem visitar os locais onde nasceram e prestar homenagem aos entes queridos ali sepultados.

Mais recentemente, a Rússia retirou-se deste programa em março de 2022, na sequência da invasão da Ucrânia e das sanções impostas pelo Japão. A 13 de agosto de 2026, o presidente Vladimir Putin fez a sua primeira visita às ilhas, a Iturup, num contexto de relações tensas por causa da guerra na Ucrânia. Sanae Takaichi, à frente do governo japonês, disse que a visita era “absolutamente inaceitável”.

Sul de Sacalina

O sul de Sacalina (Karafuto) foi invadido poucos dias antes, entre 11 e 25 de agosto de 1945, e foi mais sangrento: morreram cerca de 600 a 1200 soviéticos e 700 a 2000 soldados japoneses, além de pelo menos 2400 civis quando submarinos soviéticos afundaram dois navios de refugiados a 22 de agosto. Ao contrário das Curilas, o Japão não reivindica hoje este território.